segunda-feira, 11 de outubro de 2010
29 Despirocação cidadã
Da mesma forma que Hollywood é a “Meca do Cinema”, Pau Doce é a “Meca da Política”. Como pode, estará se perguntando o axaropado leitor, uma mera praia, bairro longínquo de um modestíssimo município, ser a Meca do que quer que seja, e em especial da política? Caro e primaríssimo leitor, as coisas nem sempre são o que não aparentam ser e sempre não são o que aparentam (não entendeu, não é? Tinha certeza de que com essa profundidade de pires de leite não ia entender mesmo). É, como dizia Exíolo, o Matreiro, em sua fundamental obra “Algumas achegas ônticas à condição reflexo-acomoidal do humano ser”: “Toda moeda de ouro, de ouro terá que ser, ou não moeda de ouro será”. Ou, como nas duras palavras do sábio gregoriano Xenoduto de Phenis, o Ereto, “mais vale não parecer que parece que um parecer que perece”, mínima máxima de sua máxima criação: “Quem confere o ferro, conferido será ferrado”. Assim, se o cinema é a “Hollywood de Meca”, Meca é a “Política de Pau Doce”. Ou a política é “Pau Doce de Meca”. Não importa, “a ordem dos cobradores não altera o propinoduto” (esta já é de Malo Pauluf, o Honesto, em sua obra, obra não, em seu canteiro de obras: “De Jersey, Caiman e outras ilhas paradolarisíacas”). Pau Doce é o centro do centro, o centro da esquerda e o centro da direita. Para cá, todos os anos, meses e dias, convergem todos os que divergem: homens públicos e mulheres muito mais públicas ainda. PuLulam candidatos de todas as estirpes: a cargos majoritários e proporcionais, maiores e menores, internos e externos, quentes e frios, inteiros e fracionários, brancos e cotistas, paulocas e cariístas, gregos e troianos, letrados e analfabetos, marchistas e marxistas. Despencam de todos os cantos e recantos do mundo: da Groenlândia Tropical, de Beabalópolis Central, da Macronésia, da República de São Ateu, do Haiti Continental e de tantos outros lugares impossíveis. Os encontros e eventos se sucedem mês a mês, durante todo o ciclo anal, anual, e vão desde encontros primeiro-mundistas, a encontros totalmente desencontrados, passando por todas as formas de reencontros e improváveis pós-encontros, não esquecendo nunca os proto-encontros e, até mesmo, os encontros furtivos, que ninguém é de ferro. Os que metem e os que levam o dito cujo vêm para cá. Os paradigmas da luxúria ideológica, também. E idem os ícones do conservadorismo, irmanados aos próceres da revolução, da rotação e da translação. Claro que toda essa fauna, que por aqui aflora, não se contenta apenas com a modalidade encontrística. Promovem também, simpósios, congressos, fóruns, cursos, teleconferências, jornadas, prosopopéias, mostras, instantâneos, shows, epístolas dramatizadas, apresentações, work-shops, demonstrações, streep-teases morais, procissões, marchas, desfiles, passeios cívicos, caminhadas, enquetes coletivas, buxixos, mesas-redondas, manifestações, abraços simbólicos, minutos de silêncio e, incrível, até comícios. Um dos mais apetitosos vícios determinantes da primazia de Pau Doce sobre outros centros aglutinadores dos construtores da ação política é o mirífico e absurdo poder de juntar o injuntável, de unir o inunível e de amalgamar o inamalgamável. Na última UNIVERsíade Universal de PAU Doce – a UNIVERPAU – (mais conhecida no baixo-mundo ideológico como ONDa Internacional de TEorização Macropolítica de PAU Doce, a famosa e procuradíssima ONDITEMPAU) uma encontroferência única no mundo, reuniram-se (reuniram-se, evidentemente, é uma força de expressão) 30 partidos que, como linha de atuação e razão de ser, apresentavam uma extraordinária coerência lógico-ideológica. Assim, fizeram-se representar, com numerosissímos delegados, os seguintes harmoniosos partidos: POP – Partido Operário Patronal, PCE – Partido Conservador de Esquerda, PES – Partido da Elite Socialista, PCL – Partido Comunista Liberal, PMR – Partido Monarco-Republicano, PPP – Partido Presidencial Parlamentarista, PTD – Partido Totalitário Democrático, PRU – Partido Ruralista Urbano, PCA – Partido Centralizador Autonomista, PEC – Partido do Extremo Centro, PEP – Partido da Extinção Preservacionista, PBQ – Partido da Bola Quadrada, PCI – Partido da Cromacidade Incolor, PA – Partido Apartidarista, PIP – Partido da Irracionalidade Pensante, PMM – Partido da Minoria Majoritária, PCA(II) – Partido dos Crentes Ateus, PMF – Partido dos Meios Finais, PIN – Partido Intransigente Negociador, PRJ – Partido da Provecta Juventude, PEA – Partido dos Escritores Analfabetos, PMC – Partido da Moralidade Corrupta, PIR – Partido da Ida Retornante, PHL – Partido da Heterosexualidade Lésbica, PUP – Partido da Unicidade Pluralista, PCR – Partido da Curva Retilínea, PFI – Partido do Fim Inicial, PMS – Partido da Multidão Solitária, PTA – Partido da Triste Alegria e PCTP – Partido Contra Todos os Partidos. Agremiações sem identidade ideológica, ou com propostas contraditórias, não foram aceitas na Univerpau, como por exemplo, o PT - Partido dos Trabalhadores e o PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira. Se fossem aceitos seria demasiada avacalhação. Sem-vergonhice tem limite. Tenho dito!
terça-feira, 5 de outubro de 2010
28 Multimacrocambialização
Estamos em plena Bienal do Livro. Incrível, ou inacreditável, o que é uma Bienal do Livro. Claro que o deserto mental do apanacado leitor estará indicando, como sempre, o óbvio: uma bienal do livro, em primeiro lugar, é “bienal”, ou seja, ocorre, invariavelmente, a cada dois anos. E, em segundo, deve ser “do livro”, isto é, o artigo único e fundamental em exposição comercializável é esse conjunto de folhas de papel costuradas, ou coladas, ou costucoladas umas às outras, numeradas, envoltas, ou quase, por uma capa mais dura ou consistente, repletas de textos, eventualmente contendo gravuras, gráficos ou fotos, a que chamamos “livro”. Porém, os letárgicos, adormecidos e rarefeitos neurônios do leitor, uma vez mais o enganaram. Não estamos em São Paulo, Madrid, Nova Iorque, Cidade do México, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Belzebu de Mato Adentro (nada a ver com o demônio, mas com belíssimos zebuínos), ou alhures. Estamos, como o leitor está calvíssimo de saber, em Pau Doce. E, em Pau Doce nada é como pensam que é. Tudo aqui é como se nunca antes houvera sido em qualquer outro lugar. Para começar, bienal não é bienal. É bianal, bianal não, bianual. E por que bienal e não bianual do livro? Só por charme e pra pegar carona na marca. É mole? E “do livro” não é, exatamente, do livro. Quer dizer, é do livro, mas não do livro como se fosse assim, do livro. Na verdade, é como se fosse dessas feiras chamadas de “feira do rolo”, nas quais toneladas de bugigangas são todas, sem exceção, objetos “de rolo”, comercializadas através do enrolado e pouco claro sistema da enrolação. Assim, a Bienal do Livro. É do livro porque todas as operações realizadas têm quer registradas no livro. Registradas no livro? Sim, há um livrão enorme, apropriadamente, chamado de “o livro”, no qual são lançadas todas as transações – transas, para os íntimos – ocorridas durante a feira. Há de tudo na Bienal do Livro de Pau Doce, inclusive alguns livros. Mas, há muito mais. Por exemplo, no quesito “novas tecnologias” – todo um amplo setor da Bienal – há produtos maravilhosos: um telescópio para cegos, programado em braile-soft, que permite aos deficientes visuais, se não enxergar, ao menos ler a descrição do que estariam enxergando se fossem eficientes visuais; um forno de micro-ondas a pilha, utilíssimo para pequenas unidades – uma empadinha, uma maravilha de queijo, um croquete – cuja especialização em miniaturas e bocaditos é motivada pelo enorme volume do compartimento das pilhas, em número de 215, das grandes (é pesadíssimo, para carregar); uma bíblia eletrônica programável, que além de 15 idiomas diferentes, possui 10 versões distintas, aplicáveis aos diversos credos religiosos que divergem quanto ao texto, sendo possível eliminar ou adicionar versículos, parágrafos inteiros, personagens, alterar contextos e afirmações, havendo recursos que pulverizam até Moisés, Salomão e o próprio Cristo se o freguês desejar; um piano com formato de bateria, acoplado a uma bateria adaptada a um teclado de piano; coquetéis saborosíssimos – Alexander, Manhattan Seco, Zarnohoff, Wallick`s, Dedo de Moça (Lady Finger), Dunhill Especial, Retirada de Moscou, Sonho de Viúva, Samba em Berlim... – desenvolvidos por maitres internacionais, que possuem em comum a revolucionária vantagem de serem saboreados (os coquetéis, não os maitres) com total sigilo e discrição, de forma que o protagonista possa “encher a cara” sem que ninguém se dê conta, já que os sofisticados drinques estão acondicionados em interessantes supositórios de glicerina - ao invés de emborcar, é só sentar em cima; avançadíssimos programas de computador, em micro-discos, que transformam os mais modernos PCs em autênticas máquinas de datilografia Remington e Olivetti, ótimas para os saudosistas; fabulosos ternos e smokings, assinados por renomados estilistas europeus, que, quando virados do avesso, transformam-se em elegantíssimos costumes femininos; elegantíssimos costumes femininos, assinados por renomados estilistas europeus, que, quando virados do avesso, transformam-se em fabulosos ternos e smokings; papagaios, pipas, pandorgas para filhos de milionários, com varetas de titânio banhadas em poeira de diamantes, papel de seda chinês da Dinastia Ming, contrabandeado do acervo exclusivo do Museu Imperial de Xangai e rabiola costurada com fios de ouro das minas texanas e da Tansmânia. Além deste setor, a Bienal comporta mais 37 pavilhões: o de antigas tecnologias, o das tecnologias totalmente obsoletas, o de produtos para saúde do corpo, da alma e contra a labirintite, o setor de produtos eróticos-I, o de equipamentos para registro da imagem, o de geringonças patrióticas, o de alimentos naturais até em excesso, o de alimentos muito pouco ou nada naturais, mas gostosos pra caramba, o de material escolar, com destaque para os dicionários especiais para analfabetos, com os verbetes totalmente ilustrados com desenhos e fotos, o setor de produtos eróticos-II, o de produtos descaradamente pornográficos, o de cursos especializados em amamentação de adolescentes e pediatria para adultos, o setor de produtos eróticos-III, o da indústria de calçados, com estandes especializados em sapatos para um só pé (direito ou esquerdo, a escolher), voltados para o consumidor perneta, o de utilidades utilitárias domésticas, como o descascador de camarão 7 barbas, o besuntador de pão automático (atenção: é o pão que deve ser automático, não o besuntador) e o eficientíssimo cortador de grão de gergelim, o setor de produtos eróticos-IV, o de produtos para a fidelidade partidária petista, como a pílula da eterna inocência e a poção do imediato esquecimento, a já famosa Poção do Olvido (não do ouvido, por favor), o dos pet-shops para animais invertebrados, o de técnicas para orientação de criadores de pássaros submarinos e de peixes andarilhos, o de comercialização de lotes celestes, o setor de produtos eróticos-V, o de construção civil e militar, o de produtos religiosos e de combate à acne, o de alimentos instantaneamente perecíveis, o de genuínos equipamentos do Paraguai, o de produtos eróticos-VI, o de bijouterias confeccionadas com metais preciosos, o de tapetes e cheques voadores, o de produtos com a data de validade vencida antes mesmo da fabricação, o de produtos eróticos-VII, o de videokês para desafinados e afônicos, o de equipamentos para esportes radicais, com destaque para canoagem no deserto e alpinismo decorativo, o de material indispensável para uma bela 1ª Comunhão, para uma ótima Circuncisão e para uma segura Viagem à Meca, o de produtos para galinhagem (criação de galinhas) e para viadagem (galinhagem de criados), o de produtos eróticos-VIII e, finalmente, o 37º pavilhão - pa vilão nenhum botar defeito – o de cursos de terrorismo moderno – presenciais ou à distância - como o recentíssimo “10 Maneiras de Explodir Logradouros Públicos, Sem Sair de Casa”. E tudo, tudinho lançado no livro!
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
27 Pescando no gargalo (dois)
Chegou o famigerado dia. Depois de muito marcar e desmarcar, adiar em cima da hora, simular atropelamento, picada de cascavel, botulismo galopante e tantas e tantas mumunhas procrastinatórias, não dava mais. Minha moral, perante a cidadania paudocense, estava periclitante. Minhas desculpas não colavam mais. Meus amigos já não aguentavam preparar tudo: barco, tralhas, iscas, gelo, oxigênio destilado e, na hora da saída, eu não aparecer. Invariavelmente, desistiam da pescaria, iam para um bar, mandavam fritar as iscas e secavam a provisão de cachaça e assemelhados da viagem frustrada. Enquanto enchiam a cara, entoavam hinos de louvor em minha homenagem, nos quais eu era tratado por “pimpolho de meretriz”, “enviado às fezes” e “meu glúteo era - segundo eles - atacado por enormes pênis enlouquecidos” e terminavam por se arrastarem até o posto de saúde (onde sabiam que eu, nessas ocasiões, me refugiava), para me insultarem pessoalmente. Mas, não tendo mais como fugir, prestes a ser expulso de Pau Doce, capitulei. Não sem pagar um alto preço psico-somático: insônia, febres terçã e quartã, taquicardia, visões fantasmagóricas, náuseas múltiplas, pesadelos nos quais eu era devorado por peixes enormes, após ser servido a eles espetado num anzol colossal. No dia marcado, no pornográfico horário das 6 da manhã, fui levado de maca até o barco. Os mais chegados, temendo outra fuga, ou tentativa de suicídio, ficaram do meu lado, sem arredar pé, durante as últimas 48 horas. Como eu tivesse amanhecido cor de gema de ovo e tartamudeante, tendo recusado, pela primeira vez na vida, o trago do despertar, fundamental para mim, (já que minha filosofia de vida me impõe a obrigatoriedade de jamais comer nada em jejum), como, enfim, suspeitaram que era ou morte iminente ou joãosembracisse calhorda, e como, em ambos os casos, não faria a mínima diferença um ou outro – se fosse óbito, me jogariam no mar, se fosse engodo, me levariam na marra – me amarraram na maca e me levaram. Assim, foi meu triunfal embarque. Depositado no pequeno convés, com o barco em movimento, comecei a ressuscitar. O vento fresco e o cheiro de mar, penetrando narinas e boca adentro, além de me despertar, me predispuseram para o primeiro gole. Arco-íris, maravilha-maravilhice, aurora boreal, cristais em brasa, orgasmos visuais, sensacionalissimamentedade, embriões niquelados, cogumelos da paz, viva a vida viva, voar de volta à vulva ventríloqua, insenso estereofônico, grig-ar, bandolo, uga-uga, ai!ui!ei!oi! Trrrrrrrruuuuuuummmm... Ah, o primeiro gole. Es-pe-ta-cu-lar! Não há nada melhor que ele, ao mesmo tempo. Só é superado pelo segundo, que só perde pro terceiro, e pro quarto, quinto. O milésimo então! Meus companheiros ocupados e entretidos com a preparação do próximo e humano morticício, mal conseguiam aproximar o gargalo da minha boca desesperada. Para impedir que o balanço do mar me provocasse enjôo e para evitar presenciar a mortandade que, na certa, se avizinhava, decidi, mais uma vez, que o único caminho era o coma alcoólico, que não seria fácil atingir, dado meu estado de excitação e estresse, derramando toneladas de adrenalina em minha indefesa corrente sanguínea. Mas, mesmo assim, fiz um esforço e emborquei, praticamente, toda a adega marítima reservada para os doze apóstolos. Éramos doze no barco. O estoque era, segundo me contaram mais tarde (muito mais tarde), composto por 10 caixas de uísque, 8 de rum carta oro, 3 de carta blanca, 19 de cachaça da pura, 8 de gim, 7 de tequila, 2 de saquê, 18 de bagaceira, 13 de conhaque, 25 de vermute rosso, 5 de bianco, 10 de vodca, 6 de campari, 2 de arak e, por via das dúvidas, 5 de álcool puro, 98 graus, para misturar com limão, se a coisa apertasse. Quando as primeiras indefesas vítimas começaram a reluzir contra o céu azul, eu já havia esgotado 80% das 1692 garrafas, uma dúzia por caixa. Quando as areias de Pau Doce podiam ser, novamente, vistas, findou o estoque e, agora juntos, os doze apóstolos, começamos a tomar o que restava do combustível do barco, já que mesmo sem óleo diesel, ele chegaria no embalo. Atracamos. Deixando para trás os assassinados esquecidos no barco, voamos para o boteco mais próximo, para não perder o primeiro gole noturno. Os doze. Correndo. O último que chegar é mulher do padre!
sábado, 25 de setembro de 2010
26 Despescagem (um)
Todo caiçara que se preze, (ou mesmo todo animal urbano, que viva, porém, numa praia, como eu), tem que fazer, ao menos uma vez na vida, uma pescaria. Como sou avesso a qualquer tipo de execução, até mesmo de seres humanos, sempre nutri pela pesca um asco fundamental. A caça, que para mim é uma pesca piorada, é uma das maiores provas de que o homem é o menor dos seres. O mais abjeto. Aliás, o mais, não. O único. Eu a aceitaria somente se fosse uma luta de iguais. O leão e o homem. O tigre e a pantera. O homem e o urso. De mãos limpas. Sem qualquer arma, a não ser as providenciadas pela natureza. O covarde correndo atrás da raposa, ou emboscando, com flechas, facas, armas de fogo, armadilhas mil, é de uma vileza brutal. Os efeminados toureiros, por exemplo, com suas tão pouco másculas fantasias, para fazerem um simulacro mentiroso de desafio e coragem, com suas capas traiçoeiras, que escondem a arma mortal, necessitam que, antes de se arriscarem, um bando de banderilheiros agressores sangrem humanamente o touro, para abatê-lo e enfraquecê-lo, quase no limite do fatal. A pesca tem sobre essas atrocidades, apenas uma insignificante diferença que, de forma alguma, a redime: o matador não vê a sua vítima. A não ser na submarina, que, não sem razão, mais do que pesca, chama-se caça. As outras, de rede ou anzol, são feitas a vôo cego. Mas, ambas horríveis. A primeira, invisivelmente, cerca o peixe e o aprisiona. Não dá a ele a menor chance. Nenhuma. Nada. É, portanto, muito humana. E a outra, é o engodo elevado ao infinito. Uma apetitosa comida, às vezes viva, que esconde no seu âmago um feroz gancho mortal. Humaníssima também. Porém, depois que me fiz paudocense, notei, após os dois primeiros anos de férias, naqueles 24 meses iniciais, que meus amigos não eram totalmente meus amigos. Havia algo, um “não-sei-quê” que os mantinha arredios e “com o pé atrás”. No início, não havia me dado conta. Quando comecei a perceber que alguma coisa estranha estava ocorrendo, fui tentando alternativas. Parti de uma premissa indiscutível: não confiavam em mim. Mas, por quê? Tudo, a meu ver, ia bem. Adaptara-me perfeitamente à vida de Pau Doce, à sua cultura fundamental de endeusamento do ócio, da demonização de qualquer atividade que pudesse ser confundida com, ou interpretada como trabalho, da adoração da noite e do desprezo pelo dia, da vocação etílica, da incorporação do jogo como função vital, da absorção da malemolente malandragem como estilo de ser, da vocação etílica, do exercício sexual, fonte de vida, do banimento de todos os preconceitos – exceções feitas a posturas opostas a estes mandamentos -, da vocação etílica, do culto à música popular madrugadeira, da elevação dos botequins à condição de catedrais e da vocação etílica. Por que, então, ser tratado como um forasteiro, ou quase? Achei, primeiro, que era por minha marca urbano-paulistana. Porém, esta possibilidade caiu por terra ao constatar, entre os locais, a existência de vários oriundos da capital bandeirante. Seria por minha origem, já que não é segredo pra ninguém que eu sou filho de Teus? Desisti dessa também. Havia outros de estirpe industrial. E minha posição na pirâmide econômica? Não, porque todos sabem que minha amorosa mãe (amorosa em todos os sentidos) me provê do essencial e Teus, a pedido dela, mantém indefinidamente meu emprego. Tudo pouquinho, tudo pingadinho, mas tudo no dia certo. Assim, fui desfiando, uma a uma, dúzias de possíveis causas e, uma a uma, as fui descartando. Até que, numa excursão que fizemos, meu amigo Fenrique Hernando e eu, ao fundo de um garrafão de uca, abri a ele meu coração e confessei-lhe minha desorientação. Ele, num rasgo de coragem e confiança na sinceridade de meu desespero, me segredou a solução. A pesca. A pesca? Sim, a pesca. Mas como, a pesca? O fato fatal era que não confiavam em mim porque eu não pescava. Nem mesmo o inocente banho em minhoca eu dava. E o povo via, e o povo falava. E, em Pau Doce, quem não pesca não presta. Agradeci ao Fenrique e decidi: vou ter que pescar. Uma pescaria. Uma só. Pode ser uma só, mas com toda a pompa e circunstância, pra ninguém botar defeito e pra todo mundo conhecer o grande pescador. Meu Deus, como é que eu vou conseguir dormir depois? Veremos...
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
25 Mais um dia a menos ou menos um dia a mais?
Pela primeira vez, amanheceu de noite em Pau Doce. Claro que para o paquidérmico leitor isso é impossível. (Impossível, aqui no paraíso, é calo na mão, trabalhar dois dias seguidos, manter o biscoito seco, desprezar a canjebrina e, principalmente, camuflar a geringuenga). Impossível e impensável. Que podem também ser impossável e impensível. Na verdade, Pau Doce combina mais com impemponsável e impompensível. Mas, o antediluviano leitor (pleonasmo), sempre preocupado com a objetividade obtusa dos fatos, estará, apressurado, perguntando-se sobre o tal amanhecer. Amanhecer pela manhã é de uma mesmice primária e apatetada, indigna de nossa nirvânica praia. Ou anoitecer de noite. O fato da noturna amanhecedura ocorreu num comuníssimo dia 37 de marceneiro (aquele mês paudocense que mistura março com janeiro). Havíamos todos (todos, aqui, quer dizer “todos” mesmo, sem exceção nenhuma, nenhumíssima, com exceção, é claro, dos menores de idade, já que a pedoalcolatria é proibida nestas paragens, e com exceção, também, dos muito maiores de idade, que a provectosenília é, aqui, enfermidade elevada ao nível de ciência) passados 3 dias, segundo os mais exagerados, ou 19, pelos cálculos dos mais comedidos, em “absoluta orgia etílica descompensada” (porque há, também, a “absoluta orgia etílica absoluta”, conhecida pelo nome técnico de “absoretuta”), quando a população foi, aos poucos, aos goles, saindo do coletivo sono pós-orgiástico, que, segundo pesquisa da Organização Mundial de Saúde, durou cerca de um mês e ficou conhecido como o “Apagão de Pau Doce” – período em que tudo parou, veículos não circularam, escolas não funcionaram, estabelecimentos não abriram nem fecharam, com as ruas e as calçadas atapetadas de ressonantes cidadãos, uns deitados sobre os outros, homens e mulheres, indiscriminadamente, sem qualquer relação necessária de amizade ou parentesco, num sono profundo, sonorizado por um fantasmagórico ronco geral, pontuado por apnéias, grunhidos e tosses secas (e algumas molhadas), transe durante o qual apenas as crianças, de todas as idades, estiveram isentas, sendo cuidadas pelo panteão de divindades paudocenses e seus diligentes mensageiros – quando, então, foram recobrando os sentidos, (a maioria louca para dar um tapa na celestial), deu-se o fenômeno miraculoso: caminhavam, afoitos como sempre, os horeiros dos relógios do número 18 para o 19 e os minuteiros, muito mais velozes, como soem ser, buscavam desesperadamente o 24, com o céu já multipontilhado de estrelas e uma obscena lua cheia exibindo-se peladona, peladona, quando, sem o menor aviso, mais abruptamente do que qualquer abruptamente já antes visto, ele, o sol, apareceu. Apareceu sem qualquer cerimônia, como alguém que, sem saber, entra num palco pensando que é um banheiro, pessoa errada na hora trocada no lugar equivocado, ele, justamente ele, tomou conta do pedaço e a noite, que mal começara (não que começara mal), transformou-se em dia, pior, transmutou-se o anoitecer, lascivo e maravilhoso, em repugnativa e nauseante manhã; e, como, proverbialmente, todo paudocense odeia, de alma e corpo, as horas matinais (reservadas ao sagrado labor de pulverização e reabsorção inconsciente dos átomos de etanol, multi-presentes na emoglobina de toda a cidadania, tarefa executada por São Morfeu, um dos mais cultuados entes da santografia de Pau Doce) os acordantes, muito mal despertos ainda, num acordo tácito e involuntário, puseram-se a vaiá-lo com todas as forças, que apesar de não serem muitas, produziam um apupo ensurdecedor, não muito diferente do ensurdecedor ronco que o precedera. O sol, tomado de horror pela recepção hostil à sua presença, numa atitude bem própria de todo sol, continuou brilhando acintosamente durante todas as horas da noite. Não restou outra saída do que mexer nos horeiros, minuteiros e segundeiros, acertando os relógios pela vontade do rei. A única dúvida que, até hoje, persiste é quanto ao dia do ocorrido: Pau Doce ganhou um dia ou perdeu uma noite? Vai saber...
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