quarta-feira, 15 de setembro de 2010

24 Umaseoutras

Olhando em torno, tudo era paz. A mais absoluta e completa. A brisa sequer soprava suavemente. Era mais um leve lamber, um imperceptível roçar. O mar mais parecia uma pintura que um elemento vivo e presente. A ausência quase total de quaisquer sonoridades, interrompida, em pequenos intervalos, por algo que dava a impressão de água caindo, pequena e pouca, imprimia ao cenário uma dimensão atemporal. As montanhas próximas, sempre de um verde semi-violento, deixavam-se ver esmaecidas; as outras, ao longe, habitualmente azuis, mantinham-se, obstinadamente, azuis. O sol alto, tórrido em dias estivais como aquele, mantinha-se a pino, majestático, mas presença apenas plástica, carente de energia. Um quase imperceptível aroma rosa-almiscarado acariciava os terminais de olfato, que, ato contínuo, produziam agradável umidade gustativa. Achei, por um longo instante, que havia morrido e me encontrava desfrutando do paraíso, curtindo o éden ou fruindo do nirvana. Esperava, já, pela chegada, a qualquer momento, de flanantes querubins, com bandejas de luz transbordantes de maná e néctar, ou entidades soprantes plenas de ondas nutrientes, ou, ainda, ectoplasmas borbulhantes, mas prestativamente alimentícios. Aos poucos, muito, muitíssimo aos poucos, fui me dando conta de que estava vivo e que, se meus sensores perceptivos não estavam danificados, encontrava-me em Pau Doce mesmo. Mas, por que o cenário de sonho? As quiméricas sensações? O éden nirvânico paradisíaco? Garçons angelicais... sopros calóricos... influxos alimentícios...? Por imperceptíveis gradações, fui me dando conta das respostas. Estava em Pau Doce, de fato, tão pau e tão doce como sempre. Estava em meu bar habitual – todos os bares paudocenses me são escandalosamente habituais – deitado sobre três mesas, voltando à vida. Pelo que depois me informaram, eu havia desconectado há uma semana, ou pouco mais, tendo feito, com uns íntimos amigos, dos quais não tenho o mínimo vestígio de lembrança, uma aposta deliciosa: aquele que conseguisse maior absorção hemoetílica por milímetro cúbico, ganharia o invejável prêmio de seis meses de gratuidade alcoólica em todos os estabelecimentos comercializadores do gênero da mais primeiríssima necessidade pedeense (de “pe” e “de”: Pau Doce). Que maior felicidade poderia ter um morador desta moralíssima praia? Que maior prêmio? Que maior ventura? Seis meses de maravilhosa e total prévia anistia pecuniária para consumo da seiva fundamental! A comissão organizadora do concurso queria, inicialmente, que a gratuidade fosse vitalícia, mas a própria cidadania manguacense, que inclui praticamente toda a população de Pau Doce, se opôs a essa eternização, prevendo um futuro sombrio para o comércio do divino néctar, o que redundaria em prejuízo dos próprios adoradores do deus Baco e deuses associados. A excepcional preocupação das lideranças paudocenses, de todos os setores: político, religioso, jurídico, educacional, esportivo e, até, das dessetorizadas, obrigou a Comidora (obviamente, COMIção julgaDORA) a lançar mão de todos os cuidados possíveis para preservar a lisura do embate, como, por exemplo, o de providenciar a aplicação de tecnologia de ponta e de sofisticados equipamentos. Para dar uma idéia do tipo de providência tomado, basta saber que a medição da quantidade do supremo elixir, por unidade de sangue, foi planejada para ser executada em intervalos de 30 minutos, em cada concorrente, pela equipe do Hemocentro “Sanguinário”, ou Seminário do Sangue, da Universidade Nacional da Transilvânia, em convênio com a Associação dos Investigados pela “Operação Vampiro”. Como o apatetado leitor pode ver, tudo em nível de primeiro mundo. Tudo em casa. Percebi, então, que o mar, que me parecera estranhamente imóvel e parado, como um quadro pendurado na parece, estava mesmo parado e imóvel e era, efetivamente, um quadro na parede do bar, pendurado bem à frente da minha cabeça. A expectativa pelos garçônicos anjos e forças espirituais alimentícias, indicava que uma semana em coma, mais alguns dias de disputado torneio, durante o qual só líquidos podiam ser ingeridos, haviam provocado uma incalculável “marica”, desesperadora sensação de insaciedade, irmã da larica. Quis saber o resultado do torneio. Meus amigos me parabenizaram pela derrota. Só entendi a razão do regozijo, quando recebi o convite para o enterro do vencedor.

sábado, 11 de setembro de 2010

23 Turismorfético

A tendência atual entre os grandes centros turísticos é a prática de uma concorrência feroz e sem limites, na qual tudo é possível, mesmo o impossível, ou seja, onde o impossível é possível. Para que o leitor, em geral acometido de indigência informativa aguda, possa ter uma idéia dos níveis atingidos por essa disputocracia (perdão leitor pelo baixo-calão, melhor talvez fosse dizer: disveadocracia, disgaycracia ou dishomossexualocracia), basta dizer que o ramo mais novo e promissor no mundo da espionagem é a especializada no mundo turístico. Esta há muito já ultrapassou outras modalidades tradicionais e lícitas de espionagem, como a política, a militar, a industrial, a diplomática, a religiosa, a esportiva, a artística e até a espionagem quimicamente pura – espionar por espionar - na qual os espiões não sabem o que espionam, nem querem saber e têm raiva de quem sabe. Guindada ao status de ciência, academicamente rotulada de Espiorística (Espionagem Turística), já consta do currículo de algumas das maiores universidades ao redor do mundo, como a de Urtgnlenkvrólia na Croésia Insular, do Instituto Superior de Antitecnologia Nuclear, situado no sul do Deserto Mongolóide e da Unimérdia, Universidade do Mercado da Dinamarca Austral. Espiorísticos (ou espioristólogos, como alguns preferem ser chamados) famosos – como o israelense Ibn Abdul Ibn, o francês William Mc’Lern, o alemão Ugundo Bantô, o saudita David Jacob Stein e o português Joaquim Manoel de Lisboa, todos, certamente, usando pseudônimos desorientadores de suas identidades pessoais e nacionais, como já é hábito entre os acadêmicos dessa humanística ciência – estão hoje entre as maiores estrelas da mídia científica e, consequentemente, entre os maiores salários mínimos da zona agrionesca. Os Zés e os Zero-setes, ou seja, os cabeças-de-bagre e os cabeças propriamente ditos, dos mais variados e avariados centros turísticos, têm atuado incessantemente no sentido de desenvolver sofisticados processos apurrinhativos e engenhosíssimas armações filhasdapuríssimas, (ríssimas não, tíssimas), para atazanar a vida de seus concorrentes, tentando conseguir colocar carne estragada na empada alheia e, de quebra, jogar dejetos no ventilador do vizinho. Torpedear um congresso, viabilizar o cancelamento de um super-show, instigar greve nos aeroportos, provocar o colapso do sistema elétrico, conseguir que o concorrente programe uma apresentação de axóde (axé com pagode), descobrir e furar a sequência de eventos da alta-estação alheia, rezar para São Pedro fazer chover às pampas durante a dita, subornar, alimentar e encaminhar esquadrilhas de borrachudos e nuvens de pernilongos em direção das principais praias e estâncias das forças oponentes, são algumas das mortíferas e demolidoras ações peçonhentas (aprovadas pela AGRESTUR – AGência Reguladora da ESpionagem TURística) terçadas entre os lealíssimos concorrentes. Como deve ter ficado claro, quase claro, digamos cinzinha, das ações acima citadas, algumas delas extrapolam o campo da pura, simples e ética espionagem e invadem o terreno do terror aberto e deslavado. Cabe, então, consignar que a Espiorística tem uma ciência irmã, quase gêmea, na verdade, um irmão, o Terrorístico, (Terrorismo Turístico), consistindo hoje numa das carreiras mais promissoras para os jovens pré-universitários, altamente incentivada pela Unesco, pelo FMI e pela Igreja Universal do Reino do Banco Central. Assim, Pau Doce, depois de intensa e febril atividade espiativo-dedodurística, assessorado pelos mais renomados e famosos espioristas e terrorísticos secretos disponíveis no mercado negro, descobriu que a última moda no disputadíssimo mundo dos eventos de turismo associativo são as já famosas celebrações onomásticas. E o que são celebrações onomásticas? (Não confundir com cerebrações onanísticas). A coisa é muito simples: são orgias comemorativas. Comemorativas, não de uma data ou acontecimento especiais, (tipo Impeachment do Collor, derrota do Maluf ou gravidez precoce da filha de um desafeto), mas de absolutamente nada. Na verdade, são orgias sócio-agregativas, cujo único motivo plausível é engordar as contas bancárias de toda a cadeia turística de uma cidade, ou região, com o soliotário pretexto de convidar pessoas com um determinado nome a se reunirem com outras pessoas que tenham esse mesmíssimo nome, com a finalidade de estarem juntas sem nenhuma finalidade. Assim, quem se chama Paulo está, em princípio, convidado para a onomasticação, ou a celebração do dia do seu nome, na cidade de São Paulo. É a verdadeira exacerbação da omonimia masturbativa. Dois ou três dias de festejos para os Paulos e Paulas de todo o Brasil (que não se conhecem) se encontrarem e perguntarem: “Ah, você é Paulo? Que maravilha! Sabe que eu também sou Paulo? Não é surpreendente? E aquele bando lá? Tudo Paulo!” É uma verdadeira paulada. Os Carlos, se reúnem no Rio de Janeiro; os Antônios em Curitiba; os Franciscos em Salvador; os Deusdédites em São Querêncio das Costas Largas, e assim por diante. Claro que pode a mesma cidade ser a Meca de mais de um nome. Em épocas diferentes, evidentemente. É o turismo se reinventando sem parar, dando nó em pingo d’água, tirando suco de pedra. Pau Doce, para não perder carona nesta onda, sediará o encontro comemorativo de um dos nomes mais importantes para o povo brasileiro e, hoje, dos mais pronunciados nas pias batismais e mais declarados nos cartórios de registro civil do país: Pauno. Pauno e Pauna, claro (É comum a crença de que este é um nome só masculino, porém é engano, pois Pauna abunda). São esperados os Paunos mais famosos do Brasil e até alguns do exterior. Do exterior? Sim, Paunos estrangeiros. Confirmaram presença, entre outros, o pianista do Congresso Pauno Cunhado, o zoólogo Pauno Coelho, a campeã de basquete Pauna Scotchas, o Ministro Pauno Curado, o sindicalista Pauno Lula, a sociality Pauna Plebe, o sobrinho do ex-governador de São Paulo Pauno Serra, o médico protologista e cirurgião bucal Pauno Kutêo Jr., o fundador da seita “Não sou o dono do mundo, mas cobro o dízimo por ele” Pauno Papa, o doleiro e megatrapaceiro Pauno Resto. Infelizmente, não poderá comparecer a famosa dupla-de-dois estilistas-farofeiros Pauno Bama e Pauno Brown. Que chance única Pau Doce vai perder!


Foto do Encontro Comemorativo dos Paunos em Pau Doce
A foto comprova que tanto Pauno cumula como Pauna abunda

domingo, 5 de setembro de 2010

22 O Ministério da Saúde adverte: Pau Doce não é mole

O que faz de Pau Doce um centro turístico, diferente, único, especial e ímpar é o fato dele ser diferente, único, especial e ímpar. Mesmo para aqueles leitores lerdos e desprivilegiados intelectualmente, ou seja, parvos (a maioria, com certeza), se ele não fosse diferente, único, especial e ímpar não poderia ser diferente, único, especial e ímpar. Mas o fato é que ele é dif... bom, é tudo isso, porque aqui o turista age como morador e o morador como turista. Não é maravilhoso? Todo turista, em qualquer lugar do mundo, quer sempre se sentir um local, já os locais sonham em ser tratados como visitantes. Menos aqui em Pau Doce que o troca-troca é de lei. De lei e recomendado pela Comissão Paudocense de Saúde. Diga-se de passagem, que esta Comissão é conhecida internacionalmente por seu trabalho, do qual o Projeto Troca-troca é o mais famoso (em especial no âmbito da comunidade pink) e por ser a única comissão de saúde, reconhecida oficialmente, formada por um único médico, não formado. É uma comissão diferente, única, especial e ímpar formada por um não-formado. Explico: o menino, quer dizer, o jovem, digamos, na verdade, o quase quarentão, que forma esta comissão individual, ainda não é médico. Falta pouco para se formar e o pouco que falta se resume numa palavra: vontade. Sabe como é, esses adolescentes que não abrem mão de continuar adolescendo até a velhice, têm pouca responsabilidade, vivem nas costas dos pais, mordem uma grana das mães (sim, pais e mães, pois, em geral, o pai original está no 5º casamento e a mãe no cesto, não, no sexto) e assistem aula uma vez por ano, exagero que os leva ao limite do estresse absoluto. Nosso quase-médico é um desses. Digo quase-médico e não sei se exagero, já que o querido João Gandaia, nestes últimos 15 anos de faculdade, foi reprovado em 7 das 8 matérias do primeiro ano (a oitava é Educação Física da qual foi dispensado, por surfar o ano todo em Pau Doce). Mesmo com essa performance, não de todo espetacular (este ano recomeçará o curso pela 16ª vez, o que demonstra sua grande qualidade: a persistência), foi contratado para compor a referida Comissão Paudocense de Saúde, (conhecida popularmente como Pau na Doença), por vários motivos e algumas ameaças. Primeiro, por não existir nesta praia outro candidato a trabalhar nessa área (nessa ou em qualquer outra), mesmo sendo funcionário público, recebendo seus proventos sem precisar trabalhar, tendo direito ao 15º salário, auxílio-paletó, vale-pescaria, ajuda-birita, bolsa-coçação e incentivo-boemia, além, é claro, de folga dupla por dia não trabalhado e ressarcimento-insalubridade por ter que atuar vestido, o que em Pau Doce é duplo atentado à cidadania: trabalhar e, ainda por cima, vestido. Os outros motivos, mais relevantes que o primeiro, serão omitidos, porque eu também sou filho de Teus e já estou com o escroto abarrotado de tanto motivo. Na biografia de nosso douto pré-médico, cuja especialidade na medicina, como vimos, é a “primeiranistologia”, um dado interessante é o fato dele não saber, nem nunca ter sabido, quem foi sua mãe, traço comum a toda estirpe dos Gandaias. Seu pai, João Gandaia Pai, seu avô, João Gandaia Avô, seu bisavô, João Gandaia Bisavô, assim como seus demais ascendentes paternos, todos, sem exceção, ignoraram a identidade de suas mães. A única quase-explicação (já que explicação, de fato, não existe) é que os Gandaias são geneticamente promíscuos, estabelecendo incalculáveis intercâmbios sexuais com sem-número de mulheres e, às vezes, com alguns homens com-número (24, por exemplo, mas isto não vem ao caso). Muitas das azaradas consortes, premiadas com um espermatozóide fecundador, acabavam remetendo (remetendo, não retransando, nem refodendo) por correspondência o resultado do conluio amoroso ao Gandaia de plantão e dando no pé sem deixar rastro, o que, sem dúvida, é melhor do que dar no rastro sem deixar pé. Uma vez de posse do novo Gandaia, o Gandaia velho o educava à sua imagem e semelhança e o ciclo se repetia. Isto desde tempos imemoriais. Esta é a saga dos Gandaias, ou Sagandaia, vivida neste momento por João Gandaia, o Atual. Porém, como nosso querido primeiranistologista é radicalmente contra o intercurso vaginal, considerando as hétero-ralações como imorais, pecaminosas e, por que não dizer, hediondas, dando preferência (e outras coisas mais) às sadias pegações conhecidas na comunidade rosa como bagote, ou “bafo no cangote”, é possível que a longa e saudável tradição dos Gandaias seja bruscamente interrompida. E tudo porque um deles, ao invés de levantar o marionete, prefere sentar no croquete.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

21 Paudocinematográfico

Um dos sonhos de todo paudocense, nato ou nonato, (aqui há um número enorme de nonatos. E alguns, de tão longevos, parecem renatos), é o de Pau Doce conseguir realizar o seu festival de cinema. Internacional, é claro. Este ano, por fim, o festival saiu do papel. Saiu do papel de promessa e assumiu o higiênico papel, (higieníssimo, diga-se), de projeto. Acredita-se que, em breve, (como todo bom cartaz de filme a estrear), chegue ao papel de proposta. Quem sabe quando, assumirá o de programa (será um verdadeiro papelão). Por conta do nosso espírito prevenido – prevenido não – precavido, resolvemos não esperar as delongas e démarches e, devagar, colocamos a mão na massa (mão, evidentemente em sentido figurado, já que Pau não tem mão. No máximo, tem cabeça. Pensante.) A primeira providência foi tentar sediar um fórum, (já que estes estão tão na moda), ligado ao tema. Depois de incontáveis reuniões preparatórias destinadas a marcar uma reunião definitiva para deliberar sobre o assunto (todas bem iniciadas, mas nenhuma terminada – nem bem, nem mal – devido à nossa característica social mais forte, à nossa vocação primeira, impressa a fogo no DNA de Pau Doce: a etilidade endêmica), resolvemos lançar o “Fórum INternacional dos Críticos de Cinema e AUdivisuais de PAU Doce” – o (já famoso) FINCCAUPAU - Por total falta de recursos, de datas e, principalmente, de vontade, decidiu-se que não seria um fórum físico, mas virtual. Como o único computador do pedaço é o do nosso nobre edil Jacinto Pinto Aquino Rego, o evento teria que ser realizado em sua casa (na verdade, seu quarto na “Lacinhos Cor-de –Rosa). O bom do negócio era que seu PC, movido a lenha, (e a álcool), obrigava a CUPULATIVA – “CÚPULA ExecuTIVA” – do FINCCAUPAU (nóis), a passar as madrugadas reunida, fazendo uns parangolés bicos-de-pato que só aqui em Pau Doce sabemos fazer (até Jacinto saudades!). Depois de seis meses de intenso trabalho, chegamos a um primeiro esboço preliminar de como deverá ser possivelmente o Festival, (quem sabe?). Aquilo que os metidinhos a besta chamam de desenho do festival, (mais exato seria “rascunho”). Em primeiro lugar a coisa seria de tal magnitude, que reduziríamos a pó todos esses festivaiszinhos que andam por aí de salto alto e rebolando: Gramado, Cannes, Veneza, Brasília, Sundance e a puta que los parió. Teríamos uma infinidade. Teríamos não, teremos. Teremos uma infinidade de categorias de filmes. Na verdade, categorias inenarráveis, como: filminho normal (bem pouco inenarrável), filmes futuros (ainda não feitos e, talvez, nem pensados), filmes ao vivo, (não confundir com teatro, o que seria grosseiro e idiota), filmes catástrofes, (que depois de projetados, não sobra um só espectador pra contar a história – o que é muito bom, pois nunca ninguém vai saber o final dela), filmes naturais, (sem atores atrozes e atrizes de enormes atrases, tudo muito natural), filmes épicos, (de fato, filmes e picos, e picas também: sexo, drogas e rock’n’roll), filmes do tipo ‘americano’ (aqueles em que a América do Norte entra pelo cano) e do tipo ‘resmundaço’ (nos quais o Resto do Mundo perde o Ca-bresto). Enfim, todo tipo de filme, com exceção dos filmes de todo tipo. Tudo ia muito bem, quer dizer, tudo ia tranqüilo, fluindo, devagar, maneiro, paradinho, paradinho, na velocidade quase zero graus centígrados que nos caracteriza, quando senão eis que, eleição pra presidente, Lula lá na frente e, pra nossa total despirocação mental, um dos nossos assume, não o poder, mas a refazenda, transformando tudo num tempo rei, como se tudo não passasse de um domingo no parque. A partir daí, mudamos de novo o FINCCAUPAU. Cheios de moral, decidimos realizar não mais o fórum virtual, nem mesmo o físico, mas, meter as caras no festival propriamente dito. Fim do FINCCAUPAU! No seu lugar entrou o “ESFINTER (ESpetacular Festival INTERnacional Cinematográfico)”. Saímos do FINCCAUPAU e entramos no ESFINTER. Foi um rito de passagem: FINCCAUPAU no ESFINTER. Coisas de Pau Doce! Sinal verde do Gilberto, saímos da inércia contemplativa e partimos para a inércia ativa. Contratamos as duas principais estrelas ascendentes do MINC no âmbito de tudo que se trate de cinema, vídeos, dvds e sacanagens conexas, os imbatíveis Mortimer da Costa e Hugo Boss Tavares, conhecidos no mundo da sétima arte como dois pesos pesados que não afundam nunca e bóiam sempre. Nunca entendi porque, com prenomes tão lindos e expressivos – Mortimer, nome inglês sonoríssimo e Hugo Boss, nome nobre da alta costura – só atendem pelos sobrenomes rampeiríssimos, Costa e Tavares. Coisas do cinema...

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

20 Au! Au! Au! Latidos no Pau

Finalmente consegui um casal de amigos fiéis. Fiéis no sentido de fiéis-fiéis. Fidelidade. Fidelissimidade. Não de fiéis sectários, fiéis de alguma fé, igreja, religião, culto. Mas, na verdade, pensando bem, (o que é difícil, mas não impossível) são fiéis também neste sentido, de alguma forma, quem sabe? Participam de um culto: à minha pessoa. Professam uma religião: na qual sou o messias. Pertencem a uma igreja: dirigida por mim. Têm uma enorme fé: em tudo o que eu digo. Enfim, são meus fiéis amigos, em todos os sentidos. Eu os adoro, não só porque eles me adoram, mas também, porque os domino, acima de tudo porque me pertencem, sobretudo porque os controlo e principalmente porque são meus e ninguém tem nada com isso. Não são meus escravos, como o afoito leitor pode estar pensando. Primeiro, porque isso de escravo está fora de moda e, além de fora de moda, dá cadeia; segundo, porque, de fato, não são meus escravos e, terceiro, são, apenas, de minha propriedade e pronto! Tenho documentos – manuscritos – (muito mal manuscritos, na verdade), provando o que digo. Ao menos o cara que me vendeu... De fato, ele não me vendeu. Tecnicamente, não foi uma operação de compra e venda. Ele os perdeu numa partidinha de pôquer. Fazer o quê? A figura, um desses perdedores por definição, vocação e DNA, já não tinha mais o que jogar. Havia perdido a barraca em que estava acampado, com tudo o que tinha dentro – porteira fechada – pro Parangolé. (O Parangolé, diga-se de passagem, é gente fina, finíssima, honestíssimo, incapaz de se aproveitar de um incauto ou de quem quer que seja). A 4X4, turbinada, com ar-condicionado até nos pneus, entregara, com documento assinado e tudo, ao Coroinha (na verdade, Coroinha do Capeta, o apelido completo). Quando chegou minha vez de pegar o bocó, já havia ido tudo, grana inclusive. Enquanto esperava meu turno (quando aparece um pato profissional como ele, fazemos um jogo paralelo para estabelecer a ordem de quem vai jogar com o infeliz. O ideal é não ser nem dos primeiros, que têm que jogar quando a partida ainda não esquentou, nem dos últimos, quando se corre o risco de só restar quirera, ou nem isso. Pra meu azar, fui dos últimos), fiz amizade com a dupla e, ao final, acabei aceitando o lote. Nunca fiquei sabendo o verdadeiro nome deles, pois na hora da troca de proprietários, o Bar Bicha parecia mais uma UTI do que um inferninho: um tomando whisky direto na veia, outro com um tubo de rum na traquéia. Tinha até nego aspirando gim por mangueirinha pelo nariz. Outras técnicas mais escatológicas, melhor nem lembrar. Três dias depois, quando acordei na minha cama, (sempre o mistério nunca desvendado de como consigo entrar em coma no bar e ressuscitar já no meu berço), a primeira coisa que senti – ainda não conseguia enxergar nada – foi a sensação de estar sendo observado. Uma hora e meia depois, quando abri os olhos, vi as duas caras peludas me olhando atentamente. Dei um grito pensando que estivesse no inferno, impressão corroborada pela fornalha dentro da minha cabeça. A sensação familiar de minhas mãos agarrando o lençol empapado de suor, me indicou que não estava nos quintos e nem aquilo era um horrendo pesadelo. Era, com certeza, uma horrenda realidade. Tentando me controlar, fui avaliando a situação. Minha cabeça estava, efetivamente, explodindo, o que, naquelas circunstâncias, era normal, a cama era, de fato, a minha, o lençol pingando, o meu. Mas, e aquelas caras peludamente diabólicas? Seriam lobisomens? Criei coragem, separei os dedos, deixei cair o lençol e, devagarinho, abri novamente os olhos. A esperança de ter sido uma alucinação gerada por destresse alcoólico, ou crise de abstinência, se desvaneceu. As caras continuavam lá, me encarando, os olhos me olhando. Se não eram lobisomens, pareciam cachorros (nunca soube bem qual a diferença). Cachorros? O que estariam fazendo dois cães ao lado da minha cama? Num relâmpago, me lembrei. O pôquer, o pato, o Bar Bicha, os cachorros. Assim começou essa fidelíssima amizade. Rebatizei-os, já que não sabia seus nomes. Para ele, um cocker esperto e malandro, escolhi Messalina, essa maravilhosa personagem, exemplo de mulher, deusa, paradigma do amor, minha heroína. Ela, uma sheepdog monumental de 150 quilos e um metro e oitenta de altura, tranqüila e doce, chamei de Napoleão, símbolo do humanismo, da construção da paz entre os povos e da integração humana. Messa e Napo me adoraram desde o primeiro olhar e da primeira cheirada. Aos poucos, mas rapidamente, se acostumaram aos meus hábitos e se habituaram aos meus costumes. Todos os dias, entre quatro e cinco da tarde, me acordam com suculentas lambidas na cara. Aprenderam a me carregar para casa e a me colocar na cama, quando a situação exige. Tiram, não sei como, a coleira de Napo e a põem em mim (acho que é Messa quem faz o trabalho) e imagino que assim conseguem me arrastar até o berço. Sempre acordo com aquele coleirão no pescoço e escoriações generalizadas. Nada grave. Nada que uma boa talagada não resolva. O mais lindo de tudo é a devolução da coleira. Chamo e Napo vem correndo, contentíssima. Antes, saltava em cima da cama, mas depois de quebrá-la varias vezes, aprendeu a esperar sentada. Para conseguir chegar a seu pescoço, (quase impossível de encontrar naquela floresta de pelos), faço o indizível esforço de me levantar e, na ponta dos pés, cumpro a missão. E nada disso seria possível sem a prestimosa colaboração de Messa que, sobre a cama, tira a coleira do meu pescoço, lambe-me a cara freneticamente, sabendo ser essa a única maneira de levantar-me do leito, segura e me alcança a coleira no momento do supremo esforço da recolocação. Não sei como poderia viver essa vida de monge sem a maravilhosa companhia dos dois. Adoro quando cantam a duas vozes; ela com um grave quase profundo e ele com trinados de prima-dona. Todo aquele que os vê atuando entende, na hora, a razão dos nomes. O único sofrimento é quando Napoleão entra no cio. Pobre Messalina, não consegue chegar no ponto G nem com todos os meus amigos do Bafo da Capivara tentando ajudar. Mas, também, com essa ajuda, nem eu.